Tommaso Brunetto, conhecido em Portugal como Tomás Brunetto, foi um ceramista natural de Turim, no Reino da Sardenha, onde terá nascido por volta de 1715. Entre 1767 e 1771, assumiu a direção artística da Real Fábrica de Louça (do Rato), em Lisboa, no contexto das políticas industriais promovidas pelo Marquês de Pombal. Pouco se conhece sobre o seu percurso antes da contratação, destinada a criar uma unidade capaz de competir com as importações de faianças europeias e porcelana oriental, mas a sua atuação foi determinante para estabelecer um programa de produção ambicioso, que assegurou à manufatura a afirmação inicial no panorama da cerâmica portuguesa do século XVIII. Algumas das peças produzidas nesta fase apresentam a marca “FR”, por vezes acompanhada das iniciais “TB”, embora a assinatura sistemática não fosse prática corrente.
Apoiado pelo genro Massimo Giuseppe Verole (ou José Veroli, casado com Ana Maria Felicita Brunetto) e pelo mestre de roda Severino José da Silva, Brunetto dirigiu a produção da fábrica para um registo marcadamente luxuoso, considerado o mais qualificado da sua atividade. Foram realizados bustos, estatuetas, potes, terrinas, aquários e amplos serviços de mesa, frequentemente brasonados, assim como talhas, jarras e esculturas ornamentais. Decorativamente, as peças recorrem a motivos naturalistas e a uma paleta dominada pelo branco, verde, amarelo e azul, incorporando em alguns casos efeitos trompe-l’œil, que denotam afinidades com modelos europeus contemporâneos, em particular com a produção de Paul Antoine Hannong em Estrasburgo. O repertório formal evidencia a assimilação de modelos da porcelana chinesa de exportação e da faiança e porcelana europeias, assim como a adaptação de tipologias inspiradas na ourivesaria, prática corrente nas principais manufaturas do período. Este conjunto revela ainda o gosto rococó tardio e uma acentuada experimentação técnica, visível no uso de moldes, esmaltes e soluções decorativas.
Apesar da qualidade das peças, a fábrica não alcançou sustentabilidade económica, compatível com os seus objetivos de substituição de importações e formação técnica. Paralelamente, as relações de Brunetto com a administração foram tensas: em abril de 1770, um relatório ao Conde de Oeiras criticava a sua liderança errática, que incluía despedimentos e admissões de operários sem justificação, bem como a apropriação do trabalho de outros, nomeadamente de Severino José da Silva, a quem por vezes atribuía peças por si assinadas. Em resposta, a administração definiu regras rigorosas, estipulando que cada fornada fosse comunicada previamente à contabilidade, mantendo-se uma folha de pagamentos semanal, inventários mensais, e proibindo a venda, fiação ou alterações salariais sem autorização. Severino, que aparentemente já havia trabalhado na Oficina de Santo Amaro e regressou após ser despedido em 1769, continuou a colaborar pontualmente com a fábrica.
Nos últimos meses de 1769, a Real Fábrica iniciou a produção de esculturas para exteriores, setor no qual manteria um monopólio ao longo do século XVIII e início do XIX, como exemplifica a conhecida estátua de Neptuno atribuída ao período de Brunetto. Apesar deste alargamento produtivo, os conflitos internos persistiram, e em 1771 Brunetto foi afastado da direção, sendo igualmente dispensado José Veroli. À data do casamento de Veroli com Ana Maria Felicita, em 1765, a família Brunetto residia no Beco de André Valente, no Bairro Alto, próximo de zonas tradicionalmente associadas à produção oleira e de faiança, como Santos-o-Velho e Santa Catarina do Monte Sinai.
No ano seguinte, em 1772, José Veroli fundou uma fábrica de cerâmica em Belas (Sintra), de curta duração devido à ausência de privilégios semelhantes aos concedidos à Real Fábrica. Após o encerramento desta iniciativa, abriu uma casa de pasto na mesma localidade, retomando uma atividade mais próxima daquela que já exercera como copeiro.
PEDRO PASCOAL DE MELO /PGRA (Janeiro, 2026)
Bibliografia consultada:
